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Quer diagramar só livros novos? Ou inovar livros antigos?

18 mar

Ah, a criatividade.

Ela aflora em todo designer, mais cedo ou mais tarde em um projeto. Leve segundos, minutos ou dias, é sempre uma das melhores partes do nosso serviço ter a ideia, pensar algo novo, algo nunca visto, algo que encha os olhos.

O designer está lá, totalmente empolgado esperando o próximo livro, o próximo novo projeto. Ideias novas surgirao, uma capa que vai chamar o leitor pra comprar o próximo best seller das livrarias, e… Machado de Assis? Como assim Brás Cubas? De novo? Esse livro que todo mundo já cansou de diagramar, rediagramar, fazer capas e até de comprar? Eca! Sai de mim! Passa pro estagiário!

Tsc tsc. Existe uma historinha que se conta por aí, sobre um vendedor que foi chamado para vender sapatos na África. Ao chegar lá, o vendedor se depara com milhares de pessoas descalças. Ele liga pro chefe: não poderei vender sapatos aqui, todos andam descalços! O chefe então envia um novo vendedor ao local. Esse, maravilhado, liga pro chefe: envie milhares de sapatos! Ninguém usa sapato aqui, vamos vender aos montes!

Machado de Assis, Fernando Pessoa, Eça de Queirós. Aqueles livrinhos que caem no vestibular da Fuvest todos os anos. Quem quer comprar aquilo? Quem ainda não leu essas obras? Muitos de nós colocam na cabeça que livros assim não valem nem entrar no portfolio depois. Compra do banco de imagens uma figura de um quadro brasileiro da época da obra, tasca um título em Arial na frente e vamos pro próximo projeto.

Temos a mania de pensar que livros velhos são velharias, são coisas que se compram nos sebos. Não vale a pena investir em algo que todos já conhecem, que todos já têm. Isso não procede! Peguem como exemplo os livros de Julio Verne, redesenhados por um cara que estava se formando em uma universidade de artes (falei sobre ele aqui). Em uma faculdade de artes, onde se deseja inovação, onde as pessoas são avaliadas por isso, o que ele fez? Ele inventou uma obra nova, onde ele poderia brincar com a capa ao seu bel prazer? Não, ele enfrentou um desafio e pegou uma coleção “batida”, que 7 entre 10 casas de pessoas que lêem possuem. E você não teria vontade de comprar esses livros? Eu teria tenho.

Um pai caminha com seu filho pela livraria. Ele já tentou dar Julio Verne para seu filho ler, mas ele achou o livro velho, imaginou que seria uma história chata, sem as emoções e efeitos especiais que temos hoje, com bruxos, vampiros e anéis. Em um dos corredores, ele vê essa coleção de livros. Seus olhos brilham. Com aquelas capas, ele imagina as incríveis aventuras que devem conter lá dentro. Pronto, livros vendidos, objetivo alcançado.

Em um post publicado no site Digital Book World eles falam sobre como limitações podem ser úteis ao designer. Às vezes, quando temos opções demais, não temos nenhuma. Quando somos brifados e “podados”, muitos ficam amoados por não poderem exercer seu “lado criativo” ao máximo, mas é aí que está o maior desafio. Como fazer Macunaíma se tornar atraente para os jovens de hoje, sedentos por novidades? Como convencer um adulto a comprar de novo os livros que ele já têm em casa?

O post fala de uma série de livros do autor Vladimir Nabokov (do clássico Lolita), que tiveram de ser redenhados. Além de um novo título que entrava, alguns outros clássicos já presentes no catálogo da editora também seriam reformulados. Além de serem clássicos, mais um obstáculo criativo: todas as capas deveriam ser feitas em uma moldura de quadro funda, remetendo à paixão de Nabokov por colecionar borboletas nesses quadros. Os designer brincaram com papéis e fontes e o resultado ficou excelente.

Palavras de John Gall, o diretor de arte que passou o trabalho: “Eu pensei que utilizar designers diferentes seria uma maneira de manter as pessoas interessadas no que estaria vindo. As pessoas param de prestar atenção depois que novos livros são lançados. Eu quis que todos  fossem importantes. Muitos redesigns acabam ficando uns sobre os outros nas pratelerias e mal são notados.”

A bela série de capas de Vladimir Nabokov pode ser vista no The Book Cover Archive, também já resenhado aqui.

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Publicado por em março 18, 2010 em capas, design do livro, ponto de vista

 

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